Skip main navigation
fecha
Pular para a Navegação Principal

Revelações

em Contexto

Mercy Thompson e a Revelação sobre o Casamento

D&C 132

Jed Woodworth

Robert Thompson estava no auge da vida, quando, no outono de 1841, morreu inesperadamente ao contrair a malária, que vitimou muitos santos dos últimos dias nos pântanos cheios de mosquitos às margens do Rio Mississippi. Thompson era o secretário particular de Joseph Smith e coeditor do jornal Times and Seasons, da Igreja, e julgava-se na ocasião que ele teria um futuro brilhante. Um dia ele estava saudável. E, dez dias depois, ele se foi, tendo a vida interrompida aos trinta anos de idade, deixando a esposa e a filha de três anos de idade.

Thompson era um homem amável. Seus amigos lembram-se dele como um “marido carinhoso, um terno pai e um amigo verdadeiro e fiel”.1 Sua esposa, Mercy, admirou sua bravura nos momentos finais. “Ele suportou o sofrimento com muita paciência, nenhuma palavra de murmúrio saiu de seus lábios”. Ela disse que ele passou seus últimos momentos testificando “que ele não tinha seguido fábulas astutamente elaboradas, que ele tinha sido levantado da escória para assentar-se entre os príncipes”.2

A morte prematura de um membro da família tem sido uma ocorrência muito comum ao longo da história humana. Geralmente era a mulher que falecia durante o parto e a mãe deixava o bebê sem o carinho suave da sua mão. Até a chegada do século XX, a maioria das famílias no mundo industrializado não poderia ter a expectativa de não perder um bebê ou criança em acidentes ou doenças. Desde o princípio dos tempos, a morte está à espreita como um lembrete da fragilidade da vida e do nosso anseio por sua continuidade.

Em contraposição à cultura da morte, uma revelação recebida por Joseph Smith trazia a promessa de que os relacionamentos mais preciosos que possuímos podem persistir na vida futura. As mães e pais, esposas e maridos, pais e filhos podem ficar juntos novamente, nosso parentesco e amizade podem durar por toda a eternidade. Os termos notáveis dessas promessas encontram-se na revelação conhecida atualmente como Doutrina e Convênios 132.

O Céu e a Terra

Dois conceitos principais a respeito do céu predominaram durante dois mil anos na história cristã.3 A visão mais comum imagina os anjos como seres solteiros e solitários, adorando e louvando a Deus em perfeita união. Essa visão baseia-se em uma distinção muito clara entre este mundo e o vindouro e privilegia o papel do intelecto na vida após a morte. Tem o foco na contemplação de Deus e Sua grandeza e não nos relacionamentos humanos. As conexões terrenas são temporais e assim, destinadas a ter um fim com a morte.4

O outro conceito principal salienta a presença de amigos e familiares na vida após a morte. A adoração a Deus persiste e a presença de entes queridos se torna essencial para a felicidade eterna. A matéria, a sobreposição de mundos eternos e a vida comum tornam-se parte do trabalho sagrado de Deus. A ideia de um céu como instituição social cresceu em popularidade durante o século XIX. A escritora americana Elizabeth Stuart Phelps expressou o grande apelo desse ponto de vista para uma geração que perdeu familiares prematuramente na Guerra Civil dos EUA. “Seria como Ele”, pergunta o romance The Gates Ajar de Phelps, “permitir que duas almas cresçam juntas nessa vida, e separá-las por toda a eternidade?”5

Na revelação dada a Joseph Smith e registrada em julho de 1843 sobre o casamento, não há nenhum esforço para moldar a vida após a morte de uma forma sentimental vitoriana, como Phelps fez. A revelação confirmou que as relações humanas persistirão, mas somente sob uma condição. Todos os compromissos sociais terão fim com a morte, a menos que sejam feitos para toda a eternidade e realizados por alguém que possua a autoridade do sacerdócio para selar tanto na Terra como no céu. Os casamentos que continuam depois da morte, diz a seção 132, são aqueles que forem feitos “para esta vida e toda a eternidade” e são “selados pelo Santo Espírito da promessa (…) a quem designei na Terra para possuir esse poder”. Aqueles que não fizerem esses convênios, antes da ressurreição dos mortos, se tornam “anjos no céu”, designados para permanecer “separados e solteiros”.6

Mercy e Robert

Mercy Rachel Fielding nasceu em 1807 em uma família metodista que trabalhava em uma pequena vila rural a 96 quilômetros ao norte de Londres. Aos vinte e quatro anos de idade, ela imigrou juntamente com o irmão mais velho Joseph para York (agora chamado Toronto), no Canadá. Logo depois, sua irmã Mary uniu-se a eles e os Fieldings começaram a frequentar as reuniões de um grupo de metodistas, que acreditavam que todas as igrejas que conheciam haviam se perdido. Na primavera de 1836, quando o missionário Parley P. Pratt chegou em York, os Fieldings encontraram a resposta para seu problema. Mercy, Mary, e Joseph foram batizados em um riacho local e mudaram-se para a sede da Igreja em Kirtland, Ohio, na primavera seguinte.7

Ainda no Canadá, Mercy conheceu Robert Blashel Thompson, que tinha percorrido um caminho semelhante ao dela. Nascido em 1811 em Yorkshire, Inglaterra, ele tinha se filiado, ainda rapaz, a um grupo de dissidentes chamado Sociedade Primitiva Metodista, o qual procurava um retorno dos dons espirituais. Ele mudou-se para o Canadá em 1834, ouviu a mensagem de Parley P. Pratt e foi batizado no mesmo mês, assim como os Fieldings. Robert Thompson e Mercy Fielding eram almas gêmeas, e se casaram logo após chegarem em Kirtland, em junho de 1837.8

Após o casamento, Mary, a irmã de Mercy, começou a morar com os primos de Joseph e Hyrum Smith e dessa forma, os conheceu melhor e aprendeu a amá-los. O coração dela se voltou a Hyrum quando a esposa dele, Jerusha, faleceu no outono de 1837, em um parto difícil. Jerusha deixou cinco filhos menores de 10 anos de idade. Joseph perguntou ao Senhor o que Hyrum deveria fazer. Foi respondido que ele deveria casar-se com Mary Fielding. Mary acreditou na inspiração de Joseph e casou-se com Hyrum na véspera do Natal de 1837.9

Depois disso, a vida de Mercy e Robert entrelaçou-se à de Mary e Hyrum. Hyrum liderou os Thompson na jornada de mil milhas de Ohio a Missouri, onde os santos se restabeleceram em 1838. Mais tarde, em uma fria noite de fevereiro, quando Hyrum e Joseph estavam encarcerados na cadeia de Liberty, Mercy e Mary visitaram os prisioneiros trazendo consigo o bebê de Hyrum, o pequeno Joseph F., o futuro profeta. Como Mary deu à luz sozinha e estava debilitada demais, Mercy cuidava de Joseph F. Mercy e Robert cuidaram dos filhos de Mary e Hyrum durante o tempo em que Hyrum esteve preso, e quando chegaram a Nauvoo, as duas famílias construíram casas uma ao lado da outra.10

Os Smith e os Thompson ficaram ainda mais próximos após o falecimento de Robert. Certa noite, na primavera de 1843, Mercy dormia na casa de Mary, fazendo companhia à irmã enquanto Hyrum estava longe de Nauvoo a trabalho. Mercy sonhou que estava de pé em um jardim com Robert. Ela ouviu alguém repetir os votos matrimoniais, embora ela não conseguisse saber de quem era a voz. Como estava em sintonia com Deus, Mercy compreendeu que o sonho era uma mensagem de Deus. “Acordei pela manhã profundamente impressionada com esse sonho que eu não consegui interpretar”.11

Mais tarde naquela noite, Hyrum voltou para casa e relatou ter tido “um sonho notável” enquanto estava longe de casa. Ele tinha visto a esposa falecida, Jerusha e dois de seus filhos que haviam morrido prematuramente.12 Hyrum estava tão confuso quanto Mercy quanto ao significado de seu sonho. Mas o momento em que ocorreram aqueles sonhos era estranho. Ao chegar em casa, Hyrum encontrou uma mensagem de seu irmão Joseph, pedindo-lhe que fosse à sua casa. “Para o seu espanto”, relatou Mercy, Hyrum soube que Joseph havia recebido uma revelação que declarava que “os casamentos realizados para esta vida só durariam por um período de tempo e que não teriam valor até que um novo fosse realizado por toda a eternidade”.13 Esta revelação seria mais tarde registrada e canonizada como Doutrina e Convênios 132.14

Robert Thompson e Jerusha Smith eram falecidos. Como fazer um novo contrato matrimonial se apenas um dos cônjuges estava vivo? Joseph Smith respondeu que uma pessoa viva pode agir como procurador de uma pessoa falecida. Desde o outono de 1840, os Santos vinham realizando batismos vicários por antepassados falecidos que haviam morrido antes de ouvir o evangelho restaurado. Agora, o mesmo princípio seria estendido ao casamento. Marido e mulher poderiam ser “selados” uns aos outros, ligados no céu assim como haviam sido ligados na Terra.15 Um casamento que havia terminado — “até que a morte os separe” — poderia ser realizado novamente, “para esta vida e por toda a eternidade”, selados pela autoridade do sacerdócio. Dessa forma, o casamento poderia durar por toda a eternidade.16

Essa perspectiva emocionou Mercy. Não havia qualquer dúvida de que, se tivesse tido a chance, ela escolheria passar a eternidade com Robert. Ela sentia a sua falta e queria estar perto dele. Ele foi o tipo de homem que a inspirou a tornar-se a pessoa que queria ser, uma discípula do Senhor Jesus Cristo. “Robert não poderia ser facilmente superado em mansidão, humildade e integridade”, disse ela.17

Algumas pessoas podem pensar que eu tenha inveja da glória da Rainha Vitória. Não enquanto o meu nome estiver no topo da lista das mulheres desta dispensação, seladas por meio de revelação divina, ao marido falecido.

Em uma manhã de segunda-feira no final de maio de 1843, Mercy Thompson e sua irmã Mary, juntamente com Hyrum e Joseph Smith reuniram-se em uma sala no segundo andar da casa de Joseph. Joseph casou Mercy e Robert para o tempo e a eternidade, com Hyrum na condição de procurador de Robert.18 Após essa cerimônia, Joseph casou Hyrum e Mary para o tempo e a eternidade. Mercy estava incrivelmente feliz. “Algumas pessoas podem pensar que eu tenha inveja da glória da Rainha Vitória”, disse ela. “Não enquanto o meu nome estiver no topo da lista das mulheres desta dispensação, seladas por meio de revelação divina, ao marido falecido”.19

Pluralidade

O selamento de Mercy Thompson ao marido falecido ofereceu consolo em meio à solidão e incerteza. Mas as promessas se aplicavam a um local distante, em uma época indeterminada em que os Thompson seriam reunidos. Até então, Mercy tinha uma vida pela frente e uma criança para cuidar. Quem iria prover o sustento? No tempo e lugar onde Mercy vivia, poucas profissões estavam abertas às mulheres. Após a morte de Robert, ela fez o que as viúvas faziam há séculos: alugou os quartos de sua casa. “Com diligência e as bênçãos do Senhor, nossas necessidades foram supridas”, ela disse.20

Ainda assim, “era uma vida solitária” e “ser privada da companhia de um marido me fez sofrer tanto que minha saúde ficou muito prejudicada”. Na crença dos santos dos últimos dias, a terra está aberta à comunicação celeste e os anjos confortam os fardos dos familiares da pessoa falecida. Durante aquele verão, um anjo apareceu a Joseph Smith. Era Robert Thompson, seu antigo secretário. “Apareceu a [Joseph] várias vezes dizendo-lhe que ele não queria que eu vivesse uma vida solitária”, contou Mercy. O anjo propôs uma solução chocante: Hyrum tinha que “ser selado a mim para esta vida”, Mercy relembra.21 Em outras palavras, Robert Thompson solicitou que Hyrum casasse com Mercy como uma das esposas “para esta vida”. Mercy e Robert, enquanto isso, permaneceriam selados na eternidade.

Mais ou menos na mesma época da aparição de Robert Thompson, Joseph Smith deu início ao registro da seção 132, ditando a revelação a seu secretário William Clayton no pequeno escritório localizado nos fundos da loja de tijolos vermelhos de Joseph.22 Partes dessa revelação eram conhecidas por Joseph anos antes, provavelmente por volta de 1831, enquanto trabalhava em sua versão inspirada do Velho Testamento.23 Joseph perguntou a Deus em oração por que Ele justificou que Abraão, Isaque, Jacó e outros que “tiveram muitas esposas e concubinas”? A resposta não estava clara de imediato porque a criação e a cultura de Joseph não aceitavam o casamento plural. A revelação trouxe a resposta simples e direta: Deus “ordenou” o casamento plural, e, porque os patriarcas bíblicos “nada mais fizeram do que as coisas que lhes foram ordenadas, entraram para sua exaltação”.24

A seção 132 respondeu a uma pergunta que foi debatida por muito tempo dentro da cultura ocidental. De um lado estavam aqueles que alegavam que Deus aprovava o casamento plural na antiguidade. Santo Agostinho achava que o casamento plural no Velho Testamento simbolizava o dia em que as igrejas de todas as nações se sujeitariam a Cristo.25 Martinho Lutero concordava: Abraão era um homem casto, cujo casamento com Hagar cumpria as promessas sagradas de Deus ao patriarca.26 Lutero levantou a hipótese de que Deus poderia aprovar, em algumas circunstâncias, o casamento plural nos tempos modernos. “Não é mais ordenado”, observou ele, “mas não é proibido”.27

Do outro lado do debate estavam aqueles que alegavam que os patriarcas do Velho Testamento haviam se desviado com a prática do casamento plural. João Calvino, contemporâneo de Lutero do século XVI, acreditava que o casamento plural pervertia a “ordem da criação” estabelecida com o casamento monogâmico de Adão e Eva no Jardim de Éden.28 Calvino teve uma influência profunda na postura religiosa americana. Nem todos os americanos concordavam que os patriarcas bíblicos haviam cometido um erro, mas os contemporâneos de Joseph Smith seguiram amplamente a crença de Calvino de que o casamento plural, nos tempos modernos era errado sob qualquer circunstância.29

A seção 132 estava acima deste debate, pois era a aprovação das ações dos patriarcas na voz do próprio Deus. O casamento plural, dizia a revelação, tinha ajudado a cumprir a promessa que Deus fez a Abraão de que sua semente “continuaria inumerável como as estrelas".30 Não obstante, a revelação era ousada ao justificar os patriarcas. Como a semente de Abraão, os santos dos últimos dias foram ordenados a praticar o casamento plural por um tempo. “Ide, portanto, e fazei as obras de Abraão”.31

A princípio, Joseph Smith estava relutante em colocar em prática o casamento plural, compreendendo plenamente a perseguição que traria à Igreja. A monogamia era a única forma de casamento aceita legalmente nos Estados Unidos, e a oposição seria certamente cruel. O próprio Joseph teve que ser convencido que o casamento plural era adequado. Em três oportunidades um anjo apareceu a ele, pedindo-lhe para seguir adiante, conforme orientado.32 Ele acabou concordando com o casamento plural e introduziu o princípio aos outros seguidores em 1841, em Nauvoo. Seguir a revelação e registrá-la permitiu-lhe levar mais facilmente a mensagem sobre esse novo mandamento, que foi apresentado com cuidado e de forma gradual.33

Mercy e Hyrum

O casamento eterno chamou mais a atenção de Mercy Thompson do que o casamento plural. Devido à sua disposição e treinamento, ela se opunha a casar-se com um homem já casado. A perspectiva de viver na mesma casa com sua irmã e melhor amiga, Mary, não diminuía o mal-estar. Joseph queria que Mary conversasse sobre o assunto com Mercy, pois achava que assim ela seria mais receptiva. Mas a conversa não teve nenhum efeito. “Quando esse assunto foi abordado comigo pela primeira vez”, Mercy contou, “me opus com todas as minhas forças de acordo com as minhas tradições antigas”.34

Hyrum conversou com ela depois. Ele sentia empatia com Mercy, já que ele se opusera ao casamento plural anteriormente. Joseph havia procurado avaliar os sentimentos de seu irmão e deixou de divulgar esses difíceis e controversos ensinamentos até que Hyrum concordasse com ele. Hyrum se converteu ao princípio ao perceber que havia se casado com duas mulheres na Terra e que não suportaria viver longe delas na eternidade. No mesmo dia em que foi selado a Mary para o tempo e a eternidade, Mary foi a procuradora para o selamento com Jerusha, assim, Hyrum foi selado a ambas as esposas para a eternidade.35

Não estava sendo pedido a Mercy que se casasse para a eternidade com Hyrum Smith. A mensagem de Robert Thompson era que Hyrum deveria casar-se com Mercy para o tempo; ou, nas palavras de Mercy, até que Hyrum “me entregue na manhã do dia da ressurreição para meu marido, Robert Blashel Thompson”.36 O casamento com Hyrum era como o casamento levirato do Velho Testamento em que o homem foi ordenado a se casar com a mulher de seu irmão falecido.37 Essa combinação de prática patriarcal e aparição de anjos fazia sentido para restauracionistas bíblicos como Hyrum Smith. Ele disse a Mercy que quando soube do pedido de Robert Thompson, “o Espírito Santo repousou sobre ele [Hyrum] do alto da cabeça até a planta dos pés”.38

As mulheres santos dos últimos dias que se converteram ao princípio do casamento plural em Nauvoo, frequentemente, relataram experiências espirituais, confirmando sua decisão. Elas viram uma luz, sentiram paz ou, em alguns casos, viram um anjo. Mercy Thompson não deixou nenhum registro de tais experiências. Mais tarde ela disse, que acreditava no princípio “porque eu poderia lê-lo por mim mesma na Bíblia, ver que foi praticado naqueles dias e que o Senhor o aprovou e o sancionou”.39

Mas a lógica bíblica por si mesma, não era suficiente para Mercy. O próprio Joseph conversou com ela e foi o testemunho dele que a convenceu. Robert Thompson apareceu a ele mais de uma vez, e na última vez “com tal poder que o fez estremecer”, ele disse. Joseph não estava inclinado a agir de acordo com a solicitação no início. Somente depois de orar ao Senhor e saber que deveria “fazer o que meu servo exigisse” que ele contou a Hyrum sobre a visão.40

Como uma crente em dons espirituais, Mercy Thompson confiava que o marido falecido havia feito uma comunicação.41 E, depois de observar Joseph Smith durante alguns anos, ela acreditou que ele era “muito sábio para errar e bom demais para ser rude”.42 Ela concluiu que a solicitação de se casar com Hyrum era “a voz do Senhor falando por intermédio da boca do profeta Joseph Smith”.43

Joseph Smith levou a sério as objeções de mulheres como Mercy Thompson. Ninguém, mulher ou homem, achou fácil aceitar o casamento plural quando ouviram a respeito pela primeira vez.44 Joseph não obrigou os homens e as mulheres a aceitarem o casamento plural pela força de seu comando.45 Tanto os homens como as mulheres foram incentivados a refletir, orar e chegar à sua própria decisão. Mercy pediu uma cópia do manuscrito da revelação e a guardou em casa durante os quatro ou cinco dias em que estudou o seu conteúdo em sua mente.46 Somente depois de muita oração e meditação, ela deu seu consentimento. Em 11 de agosto de 1843, Joseph Smith realizou o casamento de Hyrum e Mercy na casa de Mary e Hyrum, na esquina da Water e Bain Street em Nauvoo. Por recomendação de Joseph, Hyrum construiu um cômodo adicional na casa e Mercy mudou-se para ele.

Tempo e Eternidade

Durante sua breve vida juntos, os projetos de Hyrum se tornaram os projetos de Mercy e vice-versa. Mercy ajudou a escrever as palavras inspiradas que saíam da boca de Hyrum ao abençoar os membros da Igreja em seu papel como patriarca da Igreja. O Templo de Nauvoo era o grande projeto que preocupava o povo. Em algum momento, depois de buscar o Senhor fervorosamente para saber o que ela poderia fazer para acelerar a conclusão do templo, Mercy ouviu estas palavras entrarem em sua mente: “Ajude as Irmãs a doar um centavo por semana para comprar vidro e pregos”. Ela disse que Hyrum estava “muito feliz” com a revelação e fez tudo o que pôde para motivar outras pessoas a fazerem o que Mercy havia pedido.47 Com a ajuda de Hyrum, ela e Mary arrecadaram mais de mil dólares — o que não era uma pequena quantia naqueles dias — pela causa.48

Mercy e Hyrum tinham apenas 10 meses de casados quando uma bala tirou a vida de Hyrum na cadeia de Carthage. Mercy perdera outro marido no auge da vida. Ela sofreu muito com a perda de Hyrum, a quem ela descreveu como sendo “um marido carinhoso, um pai amoroso, um amigo fiel e um bondoso provedor”.49 Mas sua conexão com Mary sempre seria uma fonte de força. Mercy e sua filha Mary Jane, de seis anos de idade, passaram a morar com Mary e os dois filhos que teve com Hyrum, juntamente com os cinco filhos de Hyrum com Jerusha, dos quais Mary era a madrasta.

Em 1846, Mercy e Mary, juntamente com seu irmão Joseph, saíram em uma nova jornada juntos. Eles se uniram a milhares de seus companheiros de sofrimento em uma jornada de mais de dois mil quilômetros para uma nova Sião, além das fronteiras dos Estados Unidos na época. Chegaram ao Vale do Lago Salgado no ano seguinte. Mary faleceu em 1852, vítima de pneumonia. Mercy morou nas quatro décadas seguintes em Salt Lake City, foi fiel até o seu falecimento, serviu na Igreja onde pode e ajudou a criar os filhos de Mary e Hyrum.

A ligação de Mercy e Hyrum sempre foi uma fonte de profunda gratidão. Mas ela viveu esperando o dia em que se encontraria com Robert, o marido “amado” e a escolha de sua juventude. Até o seu falecimento em 1893, ela manteve o nome Mercy R. Thompson, nome que havia recebido ao casar-se com Robert. Doutrina e Convênios 132 prometera-lhe que ela e Robert, se fossem fieis, iriam “herdar tronos, reinos, principados e poderes”. Desfrutariam de “uma continuação das sementes para todo o sempre”.50 Ela acreditou nessas promessas e viveu para que talvez um dia pudesse realizá-las.

 

Notas de rodapé

[1] “Death of Col. Robert B. Thompson”, Times and Seasons, 1º de setembro de 1841, p. 519.

[2] Biografia de Mercy Fielding Thompson, Robert B. Thompson por Mercy R. Thompson, novembro de1854, Biblioteca de História da Igreja, Salt Lake City. A fraseologia de Thompson tem origem em Salmos 113:7–8.

[3] Colleen McDannell e Bernhard Lang, Heaven: A History (New Haven, CT: Yale Nota Bene, 2001).

[4] Jan Swango Emerson e Hugh Feiss, eds., Imagining Heaven in the Middle Ages (New York: Garland, 2000); Jeffrey Burton Russell, A History of Heaven: The Singing of Silence (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1997). Shakespeare comparou o casamento à comida — algo que deve ser saboreado e apreciado enquanto durar, até que eventualmente apodreça. Ver Lisa Hopkins, The Shakespearean Marriage: Merry Wives and Heavy Husbands (London: Macmillan, 1998), pp. 70–71.

[5] Elizabeth Stuart Phelps, The Gates Ajar, 4ª ed. (London: Sampson, Low, Son, & Marston, 1870), p. 54. Sobre a imensa popularidade de Phelps, ver McDannell and Lang, Heaven, pp. 265–266. Razões semelhantes são encontradas em poemas de Emily Dickinson. Ver Barton Levi St. Armand, “Paradise Deferred: The Image of Heaven in the Work of Emily Dickinson e Elizabeth Stuart Phelps”, American Quarterly, Volume 29 (primavera de 1977), pp.55–78.

[6] Doutrina e Convênios 132:7, 15–18. Além disso, a revelação foi além dos padrões de concepções sociais da vida após a morte por meio de procriação — “uma continuação das sementes” (D&C 132:19) — parte do plano de Deus para os seres humanos na vida futura.

[7] Leonard J. Arrington, Susan Arrington Madsen e Emily Madsen Jones, Mothers of the Prophets, ed. rev. (Salt Lake City: Deseret Book, 2009), pp. 88–95; Parley P. Pratt, The Autobiography of Parley Parker Pratt (New York: Russell Brothers, 1874), pp. 146–154.

[8] Thompson, Biografia de Robert B. Thompson por Mercy R. Thompson

[9] Arrington, Madsen e Jones, Mothers of the Prophets, pp. 96–98; Jeffrey S. O’Driscoll, Hyrum Smith: A Life of Integrity (Salt Lake City: Deseret Book, 2003), pp. 163–164.

[10] Jennifer Reeder, “‘The Blessing of the Lord Has Attended Me’: Mercy Rachel Fielding Thompson (1807–1893)”, em Richard E. Turley Jr. e Brittany A. Chapman, eds., Women of Faith in the Latter Days: Volume One, 1775–1820 (Salt Lake City: Deseret Book, 2013), pp. 424–425. Os Smith ocuparam o lote 3 do bloco 149, os Thompson o lote 1 do mesmo bloco, os quintais das propriedades eram colados uns nos outros.

[11] Mercy Rachel Fielding Thompson, Memórias, em Carol Cornwall Madsen, ed., In Their Own Words: Women and the Story of Nauvoo (Salt Lake City: Deseret Book, 1994), pp. 194–195.

[12] Essas crianças eram Mary Smith (1829–1832) e Hyrum Smith (1834–1841).

[13] Thompson, Memórias de, p. 195; ortografia modernizada.

[14] A revelação sobre o casamento foi publicada pela primeira vez como uma edição extra do Deseret News de 14 de setembro de 1852. Tornou-se a seção 132 da edição de 1876 de Doutrina e Convênios.

[15] Doutrina e Convênios 132:46.

[16] Doutrina e Convênios 132:7. Os cristãos já compreendiam a escritura contida em Mateus 22:23–30 para justificar o fim dos casamentos após a morte. Doutrina e Convênios 132:15–17 reinterpretava a passagem para dizer que alguns casamentos acabariam enquanto os outros poderiam durar.

[17] Mercy Fielding Thompson, esboço da autobiografia, Biblioteca de História da Igreja, Salt Lake City; pontuação acrescentada.

[18] Thompson, Memórias de, p. 195. Na mesma ocasião, vários outros casais se casaram para a eternidade: Brigham Young e sua esposa Mary Ann Angell; Brigham Young e a falecida esposa, Miriam Works (com Mary Ann Angell como procuradora); e Willard Richards e sua esposa, Jennetta Richards. Diário de Joseph Smith, 29 de maio de 1843, Coletânea de Joseph Smith, Biblioteca da História da Igreja, Salt Lake City; Lyndon W. Cook, Nauvoo Marriages, Proxy Sealings, 1843–1846 (Provo, UT: Grandin Book, 2004), p. 5.

[19] Thompson, Memórias de, p. 195; ortografia modernizada.

[20] Thompson, Esboço autobiográfico. Os Thompson alugavam quartos mesmo antes de Robert falecer. Mercy continuou com a prática.

[21] Carta de Mercy Fielding Thompson a Joseph Smith III, 5 de setembro de 1883, Documentos de Joseph F. Smith 1854–1918, Biblioteca da História da Igreja, Salt Lake City.

[22] Brian C. Hales, Joseph Smith’s Polygamy, 3 volumes (Salt Lake City: Greg Kofford Books, 2013), 2:64–65. Clayton relatou posteriormente que Joseph Smith mandou que a revelação fosse escrita, seguindo a sugestão de Hyrum Smith, a fim de persuadir a esposa de Joseph, Emma Smith a cessar sua oposição ao casamento plural. Emma aceitou o casamento plural por algum tempo, mas era contrária ao princípio em 12 de julho de 1843, quando a revelação foi escrita. Declaração de William Clayton, 16 de fevereiro de 1874, em “Plural Marriage”, de Andrew Jenson Historical Record, maio de 1887, pp. 225–226.

[23] Danel W. Bachman, “New Light on an Old Hypothesis: The Ohio Origins of the Revelation on Eternal Marriage”, Journal of Mormon History, Volume 5 (1978), pp. 19–32.

[24] Doutrina e Convênios 132:1, 37.

[25] Agostinho, “The Excellence of Marriage” [ca. 401], trad. Ray Kearney, em The Works of Saint Augustine: Marriage and Virginity, ed. John E. Rotelle, Volume 9 (Hyde Park, NY: New City Press, 1999), p. 49, 51.

[26] Martinho Lutero, “Genesis: Chapter Sixteen,” em Luther’s Works, 54 Volumes, 3:45–46 (volume editado por Jaroslav Pelikan, traduzido por George Schick)(St. Louis, MO: Concordia Publishing House, 1961).

[27] Martinho Lutero, “The Estate of Marriage” [1522], em Luther’s Works, 45:24 (volume editado e traduzido por Walther I. Brandt) (Philadelphia: Muhlenberg Press, 1962). Martinho Lutero recomendou que o rei Henrique VIII praticasse o casamento plural, antes de divorciar de Catarina de Aragão. Martinho Lutero para Robert Barnes, 3 de setembro de 1531, em Luther’s Works, 54 Volumes., 50:33 (volume editado e traduzido por Gottfried G. Krodel) (Philadelphia: Fortress Press, 1975).

[28] John Witte Jr. e Robert M. Kingdon, Sex, Marriage, and Family in John Calvin’s Geneva: Volume 1: Courtship, Engagement, and Marriage (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans, 2005), p. 223; John L. Thompson, “The Immoralities of the Patriarchs in the History of Exegesis: A Reappraisal of Calvin’s Position”, Calvin Theological Journal, Volume 26 (1991), pp. 9–46.

[29] A oposição de Calvino refletiu uma oposição muito mais antiga da parte da Igreja Católica, que proibia a poligamia desde o início do século IV, e no final da Idade Média escrevera a proibição no direito canônico (John Witte, From Sacrament to Contract: Marriage, Religion, and Law in the Western Tradition [Louisville, KY: Westminster University Press, 2012], 61, pp. 99–100). Muitos norte-americanos viram o comportamento dos patriarcas de forma relativista e progressiva: adequado em seu próprio lugar e tempo, mas inapropriada para as pessoas que vivem em uma época mais esclarecida. A respeito da associação anti-poligâmica com o racionalismo iluminista, ver Nancy F. Cott, Public Vows: A History of Marriage and the Nation (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2000), pp. 18–23.

[30] Doutrina e Convênios 132:30, 37. Para mais informações a respeito do tema, ver [Belinda Marden Pratt], Defense of Polygamy, by a Lady of Utah, in a Letter to Her Sister in New Hampshire (1854), pp. 7–8.

[31] Doutrina e Convênios 132:32.

[32] Brian C. Hales, “Encouraging Joseph Smith to Practice Plural Marriage: The Accounts of the Angel with a Drawn Sword”, Mormon Historical Studies, Volume 11, nº 2 (outono de 2010), pp. 55–71.

[33] Quando os santos chegaram no Vale do Lago Salgado, pelo menos 196 homens e 521 mulheres começaram a prática do casamento plural. Ver Hales, Joseph Smith’s Polygamy, 1:3, 2:165.

[34] Thompson, Esboço autobiográfico.

[35] Cook, Nauvoo Marriages, Proxy Sealings, 3. A conversão de Hyrum Smith ao casamento plural é diversas vezes datada de 1842 ou 1843. Sermão de Brigham Young, 8 de outubro de 1866, Historian’s Office reports of speeches, Biblioteca de História da Igreja, Salt Lake City; Andrew F. Ehat, A Holy Order: Joseph Smith, the Temple, and the 1844 Mormon Succession Question (impresso pelo autor, 1990), pp. 28–32; Ruth Vose Sayers, Affidavit, 1 de maio de 1869, Joseph F. Smith Affidavit Books, 5:9, Biblioteca de História da Igreja, Salt Lake City.

[36] Mercy Thompson, Testemunho, Igreja de Cristo em Missouri v. A Igreja Reorganizada de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 70 F. 179 (8ª Circunscrição 1895), em United States testimony 1892, transcrição, p. 247, Biblioteca da História da Igreja, Salt Lake City.

[37] Deuteronômio 25:5–10.

[38] Thompson para Smith, 5 de setembro de 1883.

[39] Thompson, Testemunho, p. 239.

[40] Thompson para Smith, 5 de setembro de 1883; ver também Thompson, Testemunho, p. 263.

[41] Um dos dons espirituais era “acreditar” no testemunho de outra pessoa. Doutrina e Convênios 46:14.

[42] Thompson, Esboço autobiográfico. Para conhecer várias observações, ver Mercy Fielding Thompson, “Recollections of the Prophet Joseph Smith”, Juvenile Instructor, 1 de julho de 1892, pp. 398–400.

[43] Thompson, Testemunho, p. 248.

[44] Para exemplos, ver Tópicos do Evangelho, “O Casamento Plural em Kirtland e Nauvoo”; lds.org /topics.

[45] Em conversas particulares, por exemplo, Joseph Smith com frequência fazia propostas de casamento plural, falando na primeira pessoa do singular (“Fui ordenado”) e, então, ensinava e argumentava com noivas em perspectiva em vez de depender exclusivamente numa afirmação de autoridade. Ver, por exemplo, Lucy Walker Kimball Smith, “A Brief Biographical Sketch of the Life and Labors of Lucy Walker Kimball Smith”, Biblioteca de História da Igreja, Salt Lake City; Emily Dow Partridge Young, Diário e memórias, Biblioteca da História da Igreja, Salt Lake City. Para conhecer exemplos de mulheres que rejeitaram as propostas de Joseph Smith e que permaneceram na Igreja sem qualquer repercussão negativa aparente, ver Hales, Joseph Smith’s Polygamy, 1:274–275; 2:31, 120; Patricia H. Stoker, “‘The Lord Has Been My Guide’: Cordelia Calista Morley Cox (1823–1915)”, nas edições de Richard E. Turley Jr. e Brittany A. Chapman, Women of Faith in the Latter Days: Volume 2, 1821–1845 (Salt Lake City: Deseret Book, 2012), pp. 53–54.

[46] Thompson, Testemunho, pp. 250–251. Sobre o ponto de vista do sacerdócio a respeito do casamento plural para as mulheres, ver Kathleen Flake, “The Emotional and Priestly Logic of Plural Marriage” (2009), The Arrington Lecture, nº 15.

[47] Thompson, Esboço autobiográfico.

[48] “Notice”, Times and Seasons, 15 de março de 1845, p. 847. O número era provavelmente maior na época em que o Templo de Nauvoo foi dedicado em dezembro de 1845.

[49] Thompson, Esboço autobiográfico; pontuação acrescentada.

[50] Doutrina e Convênios 132:19.